{"id":19193,"date":"2025-02-25T00:26:32","date_gmt":"2025-02-25T03:26:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/?p=19193"},"modified":"2025-02-25T00:35:54","modified_gmt":"2025-02-25T03:35:54","slug":"a-ultima-pergunta-de-isaac-asimov","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/2025_02_25_a-ultima-pergunta-de-isaac-asimov.html","title":{"rendered":"A \u00daltima Pergunta de Isaac Asimov"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/The_Last_Question\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A \u00faltima pergunta<\/a><\/strong> foi o conto preferido do Isaac Asimov. E um dos meus tamb\u00e9m. Hoje temos I.A. e o fim do mundo mais pr\u00f3ximo&#8230; vale pra refletir.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p><strong>A \u00faltima pergunta<\/strong><\/p>\n<p><strong>Isaac Asimov<\/strong><\/p>\n<p>A \u00faltima pergunta foi formulada pela primeira vez, meio a brincar, em 21 de maio de 2061, quando a humanidade se come\u00e7ava verdadeiramente a desenvolver. A pergunta resultou de uma aposta de cinco d\u00f3lares e o caso aconteceu da seguinte forma:<\/p>\n<p>Alexander Adell e Bertras Lupov eram dois dos fi\u00e9is assistentes de Multivac. Sabiam tudo o que havia a saber sobre o gigantesco computador \u2013 tudo o que lhes era permitido saber, claro est\u00e1, pois Multivac possu\u00eda muitos segredos nas suas milhas e milhas de extens\u00e3o. Os dois homens, contudo, conheciam o computador melhor do que qualquer outro ser humano, e tinham uma id\u00e9ia bastante acertada do seu plano geral de circuitos numa era em que mais ningu\u00e9m se atrevia sequer a tentar estudar a complicada e intrincada maquinaria.<\/p>\n<p>Multivac n\u00e3o precisava de grande assist\u00eancia, pois ajustava-se e corrigia-se, sem aux\u00edlio humano, quando isso era necess\u00e1rio. Adell e Lupov eram apenas assistentes em nome e as suas fun\u00e7\u00f5es eram muito superficiais e ligeiras. Limitavam-se a fornecer informa\u00e7\u00f5es ao computador, a ajustar as perguntas de forma a torn\u00e1-las mais compreensivas e traduzir as respostas em termos que o p\u00fablico percebesse melhor. Os dois homens, tal como todos os seus colegas, tiveram todo o direito de participar da gl\u00f3ria de Multivac no dia em que este se tornou p\u00fablica a sua maior inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Multivac auxiliava os especialistas, h\u00e1 muitas dezenas de anos, a construir naves espaciais e a tra\u00e7ar as rajet\u00f3rias que as levavam \u00e0 Lua, Marte e V\u00eanus, mas para al\u00e9m desses planetas, os pobres recursos da Terra n\u00e3o podiam abastecer essas naves. A energia necess\u00e1ria para as viagens mais longas era demasiada, e o carv\u00e3o e o ur\u00e2nio j\u00e1 escasseavam na Terra.<\/p>\n<p>Multivac foi aprendendo lentamente a responder a perguntas mais fundamentais sobre o assunto, e, em 14 de maio de 2061, o que era teoria passou a ser fato.<\/p>\n<p>A energia solar passou ent\u00e3o a ser acumulada, convertida e utilizada por todo o planeta. A Terra deixou, quase de um momento para o outro, de servir-se de carv\u00e3o e de ur\u00e2nio e come\u00e7ou a usar os raios invis\u00edveis da energia solar que eram fornecidos por uma pequena esta\u00e7\u00e3o, com uma milha de di\u00e2metro, situada a meio caminho entre a Lua e a Terra.<\/p>\n<p>Passados sete dias, quando finalmente Adell e Lupov conseguiram escapar \u00e0s fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e \u00e0 gl\u00f3ria que partilhavam com Multivac devido aquela tremenda inova\u00e7\u00e3o, os dois homens encontraram-se num pequeno recanto silencioso de um das c\u00e2maras subterr\u00e2neas que abrigavam algumas das partes do gigantesco corpo de Multivac. O computador merecia tamb\u00e9m um momento de calma e repouso e os dois amigos n\u00e3o tinham, de come\u00e7o, a menor inten\u00e7\u00e3o de incomoda-lo.<\/p>\n<p>Adell e Lupov tinham trazido consigo uma garrafa e a sua \u00fanica inten\u00e7\u00e3o, de momento, era passar um momento agrad\u00e1vel em companhia um do outro e da garrafa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 fant\u00e1stico quando pensamos no que isto representa \u2013 comentou Adell, depois de encher o copo e de ter provado a bebida. \u2013 Toda energia que for necess\u00e1ria, de gra\u00e7a, completamente de gra\u00e7a! Energia suficiente, se a absorv\u00eassemos toda, para derreter completamente a Terra. Toda energia que quisermos para sempre, para sempre e para sempre!<\/p>\n<p>Lupov resolveu contrariar o amigo, como era seu h\u00e1bito e, ainda por cima, fora obrigado pelo outro a comprar<br \/>\na garrafa.<\/p>\n<p>&#8211; Para sempre n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 como se fosse para sempre. At\u00e9 que nosso sol se acabe \u2013 Respondeu ele.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o \u00e9 &#8220;para sempre&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, tens raz\u00e3o. Bilh\u00f5es e bilh\u00f5es de anos, energia para pelo menos vinte bilh\u00f5es de anos! Lupov passou a m\u00e3o pelo cabelo intrigado por aquele problema: &#8211; Vinte bilh\u00f5es de anos n\u00e3o \u00e9 &#8220;sempre&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, mas temos energia para toda a nossa vida, respondeu Adell, ligeiramente agastado pela insist\u00eancia do amigo.<\/p>\n<p>&#8211; O carv\u00e3o e o ur\u00e2nio tamb\u00e9m n\u00e3o nos faltariam durante toda a nossa vida.<\/p>\n<p>&#8211; Concordo&#8230; Mas agora podemos abastecer todas as naves espaciais sem dificuldades. Podem ir a Plut\u00e3o um milh\u00e3o de vezes e voltar \u00e0 Terra, sem preocupa\u00e7\u00f5es de combust\u00edvel, o que n\u00e3o era poss\u00edvel com carv\u00e3o e ur\u00e2nio. Pergunta a Multivac, se \u00e9 que n\u00e3o me acredita.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o preciso perguntar a Multivac. Sei-o muito bem.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o desprezes o que o Multivac fez por n\u00f3s, exclamou Adell. \u2013 J\u00e1 tem feito muito pela humanidade e agora ultrapassou todas as expectativas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o compreendeste o que eu queria dizer. N\u00e3o pense que n\u00e3o admiro Multivac tanto como tu. Eu disse apenas que vinte bilh\u00f5es de anos n\u00e3o \u00e9 sempre, e que o sol n\u00e3o \u00e9 eterno. E, ent\u00e3o, que suceder\u00e1 quando o nosso sol morrer? Perguntou Lupov, muito excitado. \u2013 N\u00e3o me digas que ligamos a corrente a outro sol. Adell n\u00e3o respondeu e o silencio naquele recanto t\u00e3o tranq\u00fcilo tornou-se completo. Os dois homens estavam muito pensativos, bebendo lentamente e repousando das fadigas e barulheiras da semana finda.<\/p>\n<p>Lupov, passado um bocado, abriu os olhos e perguntou subitamente ao amigo:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s a pensar em usar a energia de outro sol quando o nosso morrer n\u00e3o est\u00e1s?<\/p>\n<p>&#8211; Nem sequer estava a pensar, respondeu Adell.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 que estavas. O teu mal \u00e9 n\u00e3o seres muito forte em l\u00f3gica. \u00c9s como aquele rapaz que foi apanhado na rua por uma chuva torrencial e que se abrigou debaixo de uma \u00e1rvore. N\u00e3o se preocupou nada pois pensou que, quando aquela \u00e1rvore estivesse encharcada, iria para debaixo de outra!<\/p>\n<p>&#8211; Bem te percebo, disse Adell, &#8211; Queres dizer que, quando o nosso sol morrer, os outros tamb\u00e9m vir\u00e3o a morrer.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente, resmungou Lupov. \u2013 Tudo teve origem na explos\u00e3o c\u00f3smica inicial, causada n\u00e3o sabemos por que, e tudo acabar\u00e1 quando as estrelas morrerem. Umas gastam-se mais depressa do que as outras, e os s\u00f3is gigantescos n\u00e3o duram mais do que cem milh\u00f5es de anos. O nosso sol viver\u00e1 uns vinte bilh\u00f5es de anos e os s\u00f3is an\u00f5es uns cem bilh\u00f5es de anos, mas j\u00e1 sabes que estes n\u00e3o nos serviriam de muito. Estou convencido de que dentro de um trilh\u00e3o de anos j\u00e1 n\u00e3o existir\u00e1 nada no Universo. A entropia tem for\u00e7osamente de alcan\u00e7ar um ponto m\u00e1ximo, ou julgas que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Sei tudo o que h\u00e1 a saber sobre entropia, disse Adell com uma dignidade for\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Isso dizes tu.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o sabes que tudo tem de acabar.<\/p>\n<p>&#8211; Sei tanto como tu.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, eu n\u00e3o disse que assim n\u00e3o fosse.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 o que disseste. Dizia a pouco que a energia solar seria para sempre. Disseste bem &#8220;para sempre&#8221;!<\/p>\n<p>Era a vez de Adell contrariar o amigo: &#8211; Talvez nos venha a ser poss\u00edvel evitar o fim de tudo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Porqu\u00ea? Temos muito tempo pra estudar o assunto.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Pergunte a Multivac.<\/p>\n<p>&#8211; Pergunta tu. Aposto que tenho raz\u00e3o. Aposto cinco d\u00f3lares que o universo n\u00e3o ser\u00e1 eterno.<\/p>\n<p>Adell j\u00e1 bebera muito, mas ainda possu\u00eda a necess\u00e1ria sobriedade para frasear os necess\u00e1rios s\u00edmbolos e opera\u00e7\u00f5es a fim de formular uma pergunta que, em palavras, corresponderia a: Ser\u00e1 a humanidade capaz de evitar que todas as estrelas, e nosso sol em particular, venham a morrer de morte natural?<\/p>\n<p>Ou talvez a pergunta devesse ser formulada da seguinte maneira: Como poder\u00e1 a quantidade de entropia do universo ser diminu\u00edda consideravelmente?<\/p>\n<p>Multivac parecia ter morrido, depois da pergunta lhe ser formulada, o sil\u00eancio era total e os dois amigos quase n\u00e3o ousavam respirar tal era a tens\u00e3o que os dominava. O teletipo que servia aquela por\u00e7\u00e3o do Multivac come\u00e7ou a funcionar subitamente. A resposta continha seis palavras: DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o temos aposta, murmurou Lupov, e os dois amigos resolveram deixar precipitadamente o local, pois a atmosfera carregara-se demasiado naquele momento de tens\u00e3o e expectativa.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, com muitas dores de cabe\u00e7a e arrependendo-se do muito que tinham bebido, os dois amigos n\u00e3o recordavam de todo o epis\u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p>Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a imagem de estrelas e constela\u00e7\u00f5es a modificar-se quase instantaneamente no visor de bordo, j\u00e1 que a passagem pelo hiper-espa\u00e7o fora efetuada no seu lapso de n\u00e3otempo. A poeira de estrelas, que antes se via, dera lugar a um \u00fanico predominante disco de luz que parecia centrado no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Trata-se de X-23, comentou Jerrodd, apontando para o disco. As duas pequenas Jerrodettes nunca antes tinham passado pelo hiper-espa\u00e7o e encontravam-se um pouco estonteadas por aquela s\u00fabita sensa\u00e7\u00e3o de exterior-interioridade, mas depressa se recompuseram \u2013 come\u00e7ando a cantarolar e dan\u00e7ar na nave espacial.<\/p>\n<p>\u2013 Alcan\u00e7amos X-23&#8230; Alcan\u00e7amos X-23, alcan\u00e7amos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Calem-se meninas, disse Jerrodine, agastada por todo aquele ru\u00eddo.<\/p>\n<p>\u2013 Tens certeza, Jerrodd? Perguntou ela ansiosamente ao marido.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso deixar de ter certeza, pois n\u00e3o? Perguntou Jerrodd, por sua vez olhando para o longo tubo de metal que corria ao longo do teto e que n\u00e3o era t\u00e3o comprido como a pr\u00f3pria nave.<\/p>\n<p>Jerrodd pouco sabia a respeito desse tubo de metal, exceto que se chamava Microvac e que era poss\u00edvel formular-lhe perguntas, que tinha a fun\u00e7\u00e3o de guiar a nave a qualquer destino que lhe fosse comunicado, que se abastecia de energia nas v\u00e1rias esta\u00e7\u00f5es sub-gal\u00e1ticas e que computava as equa\u00e7\u00f5es para as transi\u00e7\u00f5es hiper-espaciais.<\/p>\n<p>Jerrodd e a fam\u00edlia nada tinham a fazer durante a viagem e limitavam-se a viver confortavelmente na parte habit\u00e1vel da nave.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lhe dissera uma vez que o &#8220;ac&#8221; no final da palavra Microvac representava as palavras &#8220;an\u00e1logo&#8221; e &#8220;computador&#8221; numa linguagem de outros tempos, mas Jerrodd n\u00e3o fazia a menor id\u00e9ia do que isso significava.<\/p>\n<p>Jerrodine sentia-se bastante infeliz e n\u00e3o tirava os olhos do visor. \u2013 N\u00e3o me habituo a id\u00e9ia de abandonar a Terra para sempre, disse ela com l\u00e1grima nos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Porqu\u00ea? Perguntou Jerrodd. \u2013 Aquilo n\u00e3o era vida. Em X-23 teremos tudo que quisermos. N\u00e3o estaremos s\u00f3s, nem sequer seremos pioneiros. O planeta j\u00e1 tem mais de um milh\u00e3o de imigrantes como n\u00f3s. Os nossos netos tamb\u00e9m ter\u00e3o de procurar um novo planeta quando este tiver uma percentagem de popula\u00e7\u00e3o por milha quadrada mais elevada do que \u00e9 indicado, disse ele, acrescentando depois de uma curta pausa. \u2013 N\u00e3o sei o que teria acontecido se os computadores n\u00e3o tivessem inventado as viagens hiper-espaciais&#8230; da maneira que a popula\u00e7\u00e3o vai aumentando!<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei, concordou Jerrodine muito triste.<\/p>\n<p>Jerrodette I afirmou, muito orgulhosa: &#8211; O nosso Microvac \u00e9 o melhor dos Microvaques.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m me parece, respondeu Jerrodd acariciando a filha.<\/p>\n<p>Era muito conveniente possuir um Microvac e Jerrodd alegrava-se de fazer parte desta gera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o da passada. No tempo do seu pai, os \u00fanicos computadores que existiam eram m\u00e1quinas enormes que ocupavam muitas milhas de extens\u00e3o, e s\u00f3 existiam um \u00fanico em cada planeta. Chamavam esses AC Planet\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os computadores cresceram fantasticamente em mil anos de aperfei\u00e7oamentos e expans\u00e3o, e depois come\u00e7aram a diminuir em tamanho de uma maneira vertiginosa. Em lugar de transistores, que inicialmente possu\u00edam uma import\u00e2ncia vital no funcionamento dos computadores, come\u00e7aram a usar-se v\u00e1lvulas moleculares de tal forma que, finalmente, os AC Planet\u00e1rios passaram a ter apenas metade do tamanho de uma nave espacial.<\/p>\n<p>Jerrodd sentia-se sempre muito orgulhoso quando pensava que o seu Microvac era mil vezes mais complicado do que o antigo e primitivo Multivac que descobrira a forma de utilizar a energia do sol, e quase t\u00e3o complicado do que o AC Planet\u00e1rio da Terra (o maior de todos) que inventara o m\u00e9todo de viajar pelo hiper-espa\u00e7o e que tornara poss\u00edvel as viagens por todo o Universo.<\/p>\n<p>&#8211; Tantas estrelas e tantos planetas! Exclamou Jerrodine, soltando depois um suspiro de resigna\u00e7\u00e3o. \u2013 \u00c9 poss\u00edvel que a ra\u00e7a humana continue sempre a viajar pelo Universo, como n\u00f3s agora o fazemos.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre, n\u00e3o, disse Jerrodd, sorrindo, &#8211; O Universo ter\u00e1 de morrer, um dia, dentro de bilh\u00f5es de anos. Muitos bilh\u00f5es. As estrelas gastam-se, morrem. A entropia aumenta constantemente.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 entropia, Paizinho, perguntou Jerrodette II.<\/p>\n<p>&#8211; Entropia, filha, \u00e9 uma palavra que significa a quantidade de desgaste que o Universo sofre. Tudo se gasta, como sucedeu com o robotezinho que te dei, lembras-te?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel por uma pilha nova no Universo, como fizeste ao meu rob\u00f4?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, as estrelas \u00e9 que s\u00e3o as pilhas, minha filha. Uma vez que elas se gastem, acabaram-se as pilhas. Jerrodette I sobressaltou-se. \u2013 N\u00e3o as deixes, Paizinho. N\u00e3o deixes as estrelas morrerem, pediu ela a choramingar.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00eas o que fizeste? Comentou Jerrodine, num murm\u00fario.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que eu havia de saber que as pequenas se assustavam com o que lhes disse? Respondeu-lhe Jerrodd, falando tamb\u00e9m em voz baixa.<\/p>\n<p>&#8211; Pergunta ao Microvac, implorou Jerrodette, insistente.<\/p>\n<p>\u2013 Pergunta ao Microvac como \u00e9 que se acaba com essa entropia!<\/p>\n<p>&#8211; Faz-lhe a vontade, pediu Jerrodine. \u2013 Talvez as acalmes.<\/p>\n<p>Jerrodd encolheu os ombros. \u2013 Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem. Vou perguntar ao Microvac, filhas. N\u00e3o se preocupem&#8230; ele sabe tudo.<\/p>\n<p>Jerrodd formulou a pergunta e o aparelho emitiu imediatamente a resposta, por meio de um pequeno negativo que Jerrodd logo escondeu, dizendo \u00e0s filhas: &#8211; O Microvac diz que n\u00e3o se preocupem, que tomar\u00e1 conta do assunto quando chegar a altura.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o horas de ir pra cama, meninas&#8230; disse Jerrodine.<\/p>\n<p>Jerrodd voltou a ler a resposta de Microvac, antes de destruir o negativo. &#8220;DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.&#8221;<\/p>\n<p>Jerrodd encolheu os ombros, sem ligar grande import\u00e2ncia ao fato, e olhou pelo visor para X-23, que j\u00e1 se encontrava muito perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p>VJ-23X, de Lameth, examinava as profundezas negras do mapa, em tr\u00eas dimens\u00f5es, de toda a gal\u00e1xia.<\/p>\n<p>\u2013 Talvez sejamos rid\u00edculos em nos preocupar tanto com o &#8220;problema&#8221;, comentou ele.<\/p>\n<p>MQ-17J, de Nicron, abanou a cabe\u00e7a. \u2013 N\u00e3o me parece que seja rid\u00edculo. A gal\u00e1xia estar\u00e1 completamente cheia dentro de cinco anos, se a expans\u00e3o continuar nas mesmas propor\u00e7\u00f5es de agora.<\/p>\n<p>Os dois homens aparentavam ter uns vinte anos e eram ambos muito altos, elegantes, com fei\u00e7\u00f5es muito puras e um olhar que revelava uma intelig\u00eancia fora do vulgar.<\/p>\n<p>&#8211; Mesmo que assim seja, disse VJ-23X, &#8211; n\u00e3o me agrada muito entregar um relat\u00f3rio t\u00e3o pessimista ao Conselho Gal\u00e1ctico.<\/p>\n<p>&#8211; Ter\u00e1 de ser pessimista, n\u00e3o podemos preparar um relat\u00f3rio falso. At\u00e9 ser\u00e1 bom que se assustem, bem sabes que ca\u00edram numa letargia e que nada parece convenc\u00ea-los a agir.<\/p>\n<p>VJ-23X suspirou, preocupado. \u2013 O espa\u00e7o \u00e9 infinito, existem mais de cem bilh\u00f5es de gal\u00e1xias a nossa espera. Mais&#8230; muitas mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cem bilh\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uma infinidade, e cada dia que passa s\u00e3o menos infinitas. Pensa bem! A humanidade descobriu o processo de utilizar a energia solar h\u00e1 uns bons vinte mil anos, e, algumas centenas de anos mais tarde descobriu a forma de viajar pelo hiper-espa\u00e7o e de viajar livremente por toda a gal\u00e1xia. A humanidade levou ent\u00e3o um milh\u00e3o de anos a encher um pequeno planeta, e, depois, apenas quinze mil anos para encher completamente o resto da gal\u00e1xia. J\u00e1 sabes que a popula\u00e7\u00e3o dobra todos os dez anos. \u00c9 fant\u00e1stico, mas \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente. A imortalidade existe e temos de a tomar em considera\u00e7\u00e3o. Confesso que esta nossa imortalidade tem os seus defeitos. O AC Gal\u00e1ctico tem-nos resolvido muitos problemas, mas, quando resolveu o problema da velhice e da morte, criou um paradoxo que anulou as vantagens de muitos dos seus desenvolvimentos e descobertas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me digas que est\u00e1s farto de viver&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem por sombras! Redarguiu MQ-17J imediatamente. \u2013 Ainda n\u00e3o! Sou muito novo para isso. E tu, que idade tens agora?<\/p>\n<p>&#8211; Duzentos e vinte e tr\u00eas anos. E tu?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda nem sequer tenho duzentos anos&#8230; Voltemos, por\u00e9m, ao que estava a dizer. A popula\u00e7\u00e3o dobra cada dez anos. Uma vez que a gal\u00e1xia esteja completamente cheia, ocuparemos outra dentro de dez anos. Outros dez anos e teremos enchido mais duas gal\u00e1xias. Ainda mais dez anos, e outras quatro gal\u00e1xias. Dentro de cem anos teremos ocupado e colonizado mil gal\u00e1xias. Em mil anos, um milh\u00e3o de gal\u00e1xias. Dentro de dez mil anos, o inteiro Universo. E depois?<\/p>\n<p>&#8211; Existe tamb\u00e9m o problema de transporte, comentou VJ-23X. \u2013 Gostaria de saber quantas unidades de energia solar ser\u00e3o precisas para mover popula\u00e7\u00f5es inteiras de gal\u00e1xia para gal\u00e1xia.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed tens outro problema insol\u00favel. A humanidade j\u00e1 consome duas unidades de energia solar por ano.<\/p>\n<p>&#8211; A maior parte dessa energia \u00e9 desperdi\u00e7ada. Lembra-te de que a nossa pr\u00f3pria gal\u00e1xia, s\u00f3 por si, produz mil unidades de energia solar e s\u00f3 nos servimos de duas unidades.<\/p>\n<p>&#8211; Concordo contigo, mas mesmo que despend\u00eassemos com uma efici\u00eancia de cem por cento, essa energia solar h\u00e1 de vir a gastar-se. O nosso consumo de energia aumenta numa progress\u00e3o geom\u00e9trica ainda mais rapidamente do que a popula\u00e7\u00e3o. Vais ver que usaremos toda a energia solar ainda mais depressa do que usaremos todas as gal\u00e1xias.<\/p>\n<p>&#8211; Teremos de construir novas estrelas com o aux\u00edlio de gases intra-estrelares.<\/p>\n<p>&#8211; Ou do calor dissipado? Perguntou MQ-17J, com um certo tom de sarcasmo na voz.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez haja qualquer forma de inverter a entropia. Pod\u00edamos muito bem pergunt\u00e1-lo ao AC Gal\u00e1ctico. VJ-23X n\u00e3o dissera aquilo muito a s\u00e9rio, mas MQ-17J tirou da algibeira o seu pequeno terminal AC e colocouo em cima da mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me boa id\u00e9ia. Trata-se de um problema ao qual a ra\u00e7a humana ter\u00e1 de fazer face um destes dias.<\/p>\n<p>O rapaz olhou sombriamente para o terminal AC, que era um pequeno cubo e que estava ligado, pelo hiperespa\u00e7o, ao enorme AC Gal\u00e1ctico que servia toda a humanidade. Levando em conta a natureza do hiperespa\u00e7o, aquele dispositivo era uma parte integral do AC Gal\u00e1ctico.<\/p>\n<p>MQ-17J fez uma pausa pensando se, em algum dia da sua imortalidade, lhe seria permitido ver de perto o AC Gal\u00e1ctico. O AC constitu\u00eda, por s\u00ed pr\u00f3prio, um pequeno mundo independente de tudo, uma esp\u00e9cie de teia de aranha feita de raios solares que segurava nas suas entranhas as partes s\u00f3lidas do computador, dentro das quais as ondas de sub-mes\u00f5es tinham, a muito tempo, tomado o lugar das v\u00e1lvulas moleculares.<\/p>\n<p>MQ-17J perguntou, ent\u00e3o, ao seu terminal AC:<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel inverter a entropia?<\/p>\n<p>VJ-23X pareceu muito surpreendido e disse imediatamente:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o queria que o perguntasse, estava a brincar.<\/p>\n<p>&#8211; Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Sabemos muito bem que a entropia n\u00e3o pode ser invertida, tal como \u00e9 imposs\u00edvel fazer com que cinzas de madeira e de fumo voltem de novo a fazer uma \u00e1rvore!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me digas que tens \u00e1rvores no teu planeta, respondeu MQ-17J, ir\u00f4nico.<\/p>\n<p>O som do AC Gal\u00e1ctico interrompeu-os. A sua voz elevou-se, melodiosa e muito n\u00edtida, do pequeno terminal AC: DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.<\/p>\n<p>VJ-23X soltou uma exclama\u00e7\u00e3o. \u2013 V\u00eas?<\/p>\n<p>Os dois homens voltaram ent\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do relat\u00f3rio que tinham de apresentar ao Conselho Gal\u00e1ctico.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p>A mente de Zee Prime estudou esta nova gal\u00e1xia com um ligeiro interesse na enorme quantidade de estrelas que a enchiam. Nunca visitara esta gal\u00e1xia, seria poss\u00edvel que as viesse a visitar todas? Existiam tantas, cada uma delas com seu carregamento de humanidade&#8230; um carregamento que, afinal, j\u00e1 pouco pesava. A verdadeira ess\u00eancia dos homens fugia para o espa\u00e7o, cada vez mais, e j\u00e1 eram poucos os que habitavam mentalmente, a solidez dos planetas.<\/p>\n<p>Mentes, n\u00e3o corpos! Os corpos imortais, esses, permaneciam nos planetas, em suspens\u00e3o durante anos e anos. Era raro que se levantassem para qualquer atividade material, e isto ainda se tornava menos freq\u00fcente de ano para ano. Verdade era que poucos novos indiv\u00edduos nasciam para se juntarem aos bilh\u00f5es de seres humanos, mas que import\u00e2ncia tinha isso? O Universo j\u00e1 tinha pouco espa\u00e7o para abrigar mais corpos materiais.<\/p>\n<p>Zee Prime despertou de sua reverie ao sentir a presen\u00e7a mental de outra mente.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou Zee Prime, informou ele, &#8211; a quem tenho eu o prazer de&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou Deeb Sub Wun. De que gal\u00e1xia veio?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem nome. Chamamos-lhe apenas a Gal\u00e1xia. E esta, como se chama?<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m s\u00f3 a conhecemos por Gal\u00e1xia. Parece que agora as Gal\u00e1xias j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam nomes e que todos se referem \u00e0 sua Gal\u00e1xia e nada mais. N\u00e3o vejo as vantagens de lhes voltar a dar nomes.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o. As Gal\u00e1xias s\u00e3o todas iguais.<\/p>\n<p>&#8211; Nem todas. H\u00e1 uma que \u00e9 diferente, aquela que originou a ra\u00e7a humana.<\/p>\n<p>&#8211; Onde \u00e9 que fica essa Gal\u00e1xia? Perguntou Zee Prime.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. O AC Universal \u00e9 que deve saber.<\/p>\n<p>&#8211; E se lhe pergunt\u00e1ssemos? Estou com uma grande curiosidade.<\/p>\n<p>Zee Prime pensou em todos os bilh\u00f5es de gal\u00e1xias, todas iguais e todas elas com as suas popula\u00e7\u00f5es corporais e mentais, e admirou-se ao lembrar-se de que uma delas era muito diferente \u2013 \u00fanica por ser a Gal\u00e1xia original que criara a humanidade.<\/p>\n<p>Zee Prime decidiu visitar esta Gal\u00e1xia e n\u00e3o hesitou em dirigir-se ao computador celestial. \u2013 AC Universal! Em que Gal\u00e1xia \u00e9 que nasceu a humanidade?<\/p>\n<p>O AC Universal ouviu a pergunta, pois possu\u00eda receptores sempre alerta em todos os mundos e por todo o espa\u00e7o. Estes receptores estavam ligados, pelo hiper-espa\u00e7o, a um ponto qualquer, desconhecido de todos, onde o AC Universal se mantinha isolado e sempre pronto a auxiliar qualquer ser humano que a ele recorresse.<\/p>\n<p>Zee Prime ouvira falar de um homem que uma vez se aproximara mentalmente do ponto em que se julgava encontrar o AC Universal, mas que vira apenas um pequeno globo com poucos metros de di\u00e2metro. \u2013 Mas como \u00e9 poss\u00edvel que um globo t\u00e3o pequeno fosse o AC Universal, perguntara Zee Prime, admirad\u00edssimo. A maioria do AC Universal, explicara-lhe algu\u00e9m, &#8211; encontra-se no hiper-espa\u00e7o, mas ningu\u00e9m sabe com que forma e dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o admirava, pensara Zee Prime, pois j\u00e1 l\u00e1 ia o tempo em que o homem tomara qualquer parte nas atividades do AC Universal. Cada um dos computadores planeava e constru\u00eda o seu sucessor sem o menor aux\u00edlio humano. Cada um dos AC Universais, com seu milh\u00e3o de anos ou mais de exist\u00eancia, acumulava os dados necess\u00e1rios para construir um sucessor melhor e mais complicado, no qual os seus pr\u00f3prios conhecimentos e individualidade seriam submergidos<\/p>\n<p>O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, n\u00e3o com palavras mas mentalmente. A mente de Zee Prime sentiu-se guiada rapidamente por entre milh\u00f5es de gal\u00e1xias, at\u00e9 que se deteve numa gal\u00e1xia distante. Zee Prime sentiu um pensamento invadir-lhe a mente, infinitamente n\u00edtido: ESTA \u00c9 A GAL\u00c1XIA QUE ORIGINOU A RA\u00c7A HUMANA!<\/p>\n<p>Zee Prime ficou muito desapontado, pois afinal, a Gal\u00e1xia era igual a todas as outras. Deeb Sub Wun, que seguira o outro, em pensamento, perguntou subitamente: &#8211; E qual daqueles \u00e9 o sistema planet\u00e1rio onde nasceu a humanidade?<\/p>\n<p>&#8211; O SOL QUE ABASTECIA ESSE SISTEMA EXPLODIU. O PLANETA TERRA FOI COMPLETAMENTE DESTRU\u00cdDO, respondeu o AC Universal.<\/p>\n<p>&#8211; E o que sucedeu aos seus habitantes? Morreram? Perguntou Zee Prime, estremecendo ante a id\u00e9ia da morte que h\u00e1 j\u00e1 muitos milh\u00f5es de anos n\u00e3o fazia parte do seu vocabul\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00c3O. SALVARAM-SE POIS FOI POSS\u00cdVEL CONSTRUIR-LHES UM NOVO MUNDO PARA SEUS CORPOS MATERIAIS, COMO \u00c9 COSTUME NESSES CASOS.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente, murmurou Zee Prime, lembrando-se de que o AC Universal, e antes dele o AC Gal\u00e1ctico, nunca permitiram a morte de uma popula\u00e7\u00e3o inteira, e, particularmente, da que originara a ra\u00e7a. Zee Prime deixou-se libertar da influ\u00eancia do AC Universal e regressou imediatamente ao ponto onde antes se encontrara. Sentia-se deprimido, preocupado, e n\u00e3o queria voltar a ver aquela Gal\u00e1xia onde tinham nascido os primeiros homens.<\/p>\n<p>&#8211; Que se passa? Perguntou-lhe Deeb Sub Wun, sentindo o pessimismo do outro.<\/p>\n<p>&#8211; O Universo est\u00e1 a morrer&#8230; o Sol original j\u00e1 morreu!<\/p>\n<p>&#8211; Todas as estrelas t\u00eam de morrer. N\u00e3o vejo que isso tenha de grande import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quando se gastar toda a energia, os nossos corpos morrer\u00e3o, com certeza, e n\u00f3s tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Temos ainda bilh\u00f5es de anos a nossa frente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero que isso aconte\u00e7a, mesmo passados bilh\u00f5es de anos. AC Universal, chamou Zee Prime. &#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel impedir que as estrelas morram?<\/p>\n<p>&#8211; Isso seria inverter a entropia, o que \u00e9 imposs\u00edvel, comentou Deeb Sub Wun.<\/p>\n<p>&#8211; OS DADOS AINDA S\u00c3O INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA. Respondeu o AC Universal.<\/p>\n<p>A mente de Zee Prime retirou-se para a sua pr\u00f3pria Gal\u00e1xia, sem sequer se despedir de Deeb Sub Wun, cujo corpo se encontrava certamente numa Gal\u00e1xia distante e que talvez nunca viesse a encontrar de novo. Zee Prime, muito infeliz com a resposta do AC Universal, come\u00e7ou a juntar hidrog\u00eanio intra-estelar para construir uma pequena estrela s\u00f3 para si. Se as estrelas tinham de morrer, pelo menos ainda era poss\u00edvel passar o tempo a formar algumas novas estrelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p>A Humanidade falava de si para si, j\u00e1 que, de certo modo, a Humanidade era um todo mental indivis\u00edvel. Esse todo mental representava trilh\u00f5es de corpos sem idade, cada um no seu ponto do Universo, cada um deles repousando calma e incorruptamente, e cada um deles cuidado por aut\u00f4matos perfeitos e tamb\u00e9m incorrupt\u00edveis, enquanto que todas as mentes do Universo se juntavam num \u00fanico pensamento, numa \u00fanica mente universal.<\/p>\n<p>&#8211; O Universo est\u00e1 prestes a morrer, disse a Humanidade.<\/p>\n<p>A Humanidade passeou o olhar pelas obscuras Gal\u00e1xias que constitu\u00edam o Universo. As brilhantes estrelas gigantescas j\u00e1 h\u00e1 muito tinham desaparecido, e as poucas estrelas que restavam empalideciam rapidamente, j\u00e1 sem brilho nem energia para alimentar a Humanidade.<\/p>\n<p>Era verdade que tinham nascido outras novas estrelas, entre as de maior idade, algumas por meio de processos naturais e outras constru\u00eddas pelo Homem, mas estas tinham a vida curta e tamb\u00e9m j\u00e1 come\u00e7avam a morrer. Era poss\u00edvel, n\u00e3o havia d\u00favida, continuar a formar novas estrelas com o aux\u00edlio da poeira estrelar que flutuava pelo espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Desde que seja economizada cuidadosamente, segundo as instru\u00e7\u00f5es do AC C\u00f3smico, a energia que ainda existe pelo Universo poder\u00e1 durar alguns milh\u00f5es de anos, disse a Humanidade.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o impedir\u00e1, respondeu a Humanidade, &#8211; que tudo venha a acabar. Essa energia acabar\u00e1 por se esgotar. A entropia continuar\u00e1 a aumentar at\u00e9 alcan\u00e7ar o seu ponto m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel inverter a entropia? Quis saber a Humanidade.<\/p>\n<p>\u2013 Perguntemos ao AC C\u00f3smico.<\/p>\n<p>O AC C\u00f3smico rodeava a Humanidade, mas n\u00e3o no espa\u00e7o. N\u00e3o existia o menor fragmento do computador que se encontrasse no espa\u00e7o. O AC C\u00f3smico era composto de qualquer coisa que nem era mat\u00e9ria nem energia, e instalara-se definitiva e completamente no hiper-espa\u00e7o. A quest\u00e3o das suas dimens\u00f5es e da sua natureza j\u00e1 n\u00e3o tinha o menor significado em termos que a Humanidade pudesse compreender.<\/p>\n<p>&#8211; AC C\u00f3smico, perguntou a Humanidade, &#8211; como ser\u00e1 poss\u00edvel inverter a entropia?<\/p>\n<p>&#8211; OS DADOS AINDA S\u00c3O INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA, respondeu o AC C\u00f3smico.<\/p>\n<p>&#8211; Re\u00fana, ent\u00e3o, os necess\u00e1rios dados, comandou a Humanidade.<\/p>\n<p>&#8211; ASSIM O CONTINUAREI A FAZER. H\u00c1 CEM BILH\u00d5ES DE ANOS QUE O FA\u00c7O. TANTO OS MEUS PREDECESSORES COMO EU PR\u00d3PRIO J\u00c1 FOMOS MUITAS VEZES INTERROGADOS SOBRE ESTE PROBLEMA. OS DADOS QUE POSSUO CONTINUAM A SER INSUFICIENTES.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel que venha a reunir todos os dados suficientes para formar uma resposta, perguntou a Humanidade, &#8211; ou ser\u00e1 o problema insol\u00favel em qualquer circunst\u00e2ncia?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00c3O EXISTE QUALQUER PROBLEMA QUE SEJA INSOL\u00daVEL EM QUALQUER CIRCUNST\u00c2NCIA QUE POSSA SER CONCEBIDA, respondeu o AC C\u00f3smico.<\/p>\n<p>&#8211; Quando \u00e9 que possuir\u00e1 todos os dados que lhe permitam dar-nos essa informa\u00e7\u00e3o, perguntou a Humanidade.<\/p>\n<p>&#8211; OS DADOS AINDA S\u00c3O INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca deixe de estudar o problema, pediu a Humanidade.<\/p>\n<p>&#8211; MUITO BEM, respondeu o AC C\u00f3smico.<\/p>\n<p>&#8211; Aguardemos, comentou a Humanidade, resignada.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p>As estrelas e as Gal\u00e1xias, moribundas e obscuras, j\u00e1 n\u00e3o iluminavam o espa\u00e7o como o haviam feito durante dez trilh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Um por um, os homens foram-se misturando com o AC, cada um dos corpos f\u00edsicos perdendo a sua identidade mental de uma forma que n\u00e3o representava uma perda, mas sim um benef\u00edcio.<\/p>\n<p>A \u00faltima mente da Humanidade pausou antes de se fundir, olhando para o espa\u00e7o que nada continha, al\u00e9m de uma vaga poeira e de um ou outro corpo sem vida nem luz, e que se desvanecia lentamente num zero absoluto.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 isto o fim de tudo AC? Perguntou a Humanidade.<\/p>\n<p>\u2013 Ser\u00e1 poss\u00edvel vir a transformar esse caos num novo Universo? Ser\u00e1 poss\u00edvel ainda inverter a entropia?<\/p>\n<p>&#8211; OS DADOS AINDA S\u00c3O INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA, respondeu o AC. A \u00faltima mente da Humanidade fundiu-se finalmente e tudo deixou de existir, exceto o AC \u2013 situado nas entranhas n\u00e3o-existenciais do hiper-espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria e a energia deixaram de existir, e, com elas, o tempo e o espa\u00e7o. O pr\u00f3prio AC s\u00f3 continuava a existir por querer encontrar uma resposta ao problema que nunca resolvera e que fora apresentado, pela primeira vez a dez trilh\u00f5es de anos antes, a um computador que era para o AC ainda menos do que o homem representava para a Humanidade.<\/p>\n<p>Todos os problemas tinham sido solucionados, e, at\u00e9 que este tamb\u00e9m o fosse, o AC n\u00e3o se deixaria perder a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Todos os dados existentes j\u00e1 faziam parte de AC, n\u00e3o existiam mais dados nem onde os procurar. AC tinha de correlacionar completamente todos os dados e conhecimentos que possu\u00eda e calcular a infinidade de fatores que haviam constitu\u00eddo o todo do Universo.<\/p>\n<p>O computador passou um longo intervalo, sem tempo \u2013 j\u00e1 que o tempo deixara de existir \u2013 a realizar a complicada tarefa, e, finalmente, aprendeu a inverter a dire\u00e7\u00e3o da entropia.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o havia, por\u00e9m, nenhum homem a quem AC pudesse dar a resposta da \u00faltima pergunta. N\u00e3o importava. A solu\u00e7\u00e3o, ao ser demonstrada, tamb\u00e9m se encarregaria disso.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia de AC observou atentamente o vazio que antes fora um Universo e demorou o olhar pelo que agora representava um completo Caos. Tinha de meter m\u00e3os a obra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; FA\u00c7A-SE A LUZ, ordenou AC.<\/p>\n<p>E a Luz foi feita.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">.oOo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>A \u00daltima Pergunta, 1956, Isaac Asimov<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>T\u00edtulo original: The Last Question<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o dessa vers\u00e3o: desconhecido (se algu\u00e9m souber, por favor, indique nos coment\u00e1rios)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Original em ingl\u00eas <a href=\"https:\/\/users.ece.cmu.edu\/~gamvrosi\/thelastq.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>\u00a0e em outra tradu\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/noosfera.com.br\/a-ultima-pergunta\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Em <strong>2016<\/strong> eu postei esse mesmo conto, na vers\u00e3o em v\u00eddeo. <a href=\"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/2015_04_29_a-ultima-pergunta-isaac-asimov.html\" target=\"_blank\">Aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima pergunta foi o conto preferido do Isaac Asimov. E um dos meus tamb\u00e9m. Hoje temos I.A. e o fim do mundo mais pr\u00f3ximo&#8230; vale pra refletir. .oOo. A \u00faltima pergunta Isaac Asimov A \u00faltima pergunta foi formulada pela primeira vez, meio a brincar, em 21 de maio de 2061, quando a humanidade se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,119,1372,1410],"tags":[613,1476,614,732],"class_list":["post-19193","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-ficcao-cientifica","category-ia","category-inteligencia-artificial","tag-asimov","tag-conto","tag-fictorama","tag-isaac-asimov"],"views":5,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19193"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19193\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19194,"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19193\/revisions\/19194"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ovelhaeletrica.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}